Artigo: Bolsonaro investe no tumulto e cultiva clima de ruptura

Bruno Boghossian

Em momentos de tensão, Jair Bolsonaro gosta de investir no tumulto. O presidente aproveitou o caos que se desenha na economia para lançar novas suspeitas sem provas sobre o resultado das eleições e ampliar sua carga de intimidação sobre o Congresso. De quebra, desdenhou do coronavírus e levantou hipóteses de traição dentro do Planalto.

O pacote é mais do que um lance de diversionismo. Ele cumpre o papel de desviar atenções e mascarar o fato de que o governo não tem um plano para conter os riscos para a economia, mas o objetivo principal de Bolsonaro é alimentar a desordem e cultivar um ambiente cada vez mais favorável a rupturas.

O presidente não explicou como pretendia reagir ao derretimento das Bolsas em seu encontro com brasileiros em Miami, na segunda (9). Preferiu fabricar mais um elemento de incerteza ao fazer um novo ataque à lisura das últimas eleições.

Um ano depois de assumir o poder, ele se queixou de ter sido alvo de uma falcatrua que teria impedido sua eleição em primeiro turno. “No meu entender, teve fraude”, afirmou.

O TSE rebateu Bolsonaro e repetiu que as urnas são seguras. O presidente alegou ter provas, mas não exibiu nenhuma evidência. Seu propósito, afinal, é apenas lançar dúvidas para produzir um clima permanente de desequilíbrio.

No dia em que a Bolsa despencou 12%, o presidente só observou o pânico. Disse que as preocupações com o coronavírus eram exageradas e, na manhã seguinte, deu de ombros: “Isso acontece esporadicamente”.

Em vez de apontar para águas mais tranquilas, Bolsonaro faz questão de agitar o barco. Trabalha para ampliar as tensões com o Congresso e desfazer a negociação que ele mesmo assinou para partilhar o controle do Orçamento. Inventou ainda uma conspiração grave ao dizer que o acordo foi uma rasteira de seus auxiliares.

A conduta irresponsável não é acidental. Este é o governo que torceu por uma onda de protestos para reagir com medidas de exceção, como o AI-5. A instabilidade seria uma desculpa para ampliar seus poderes.​

Bruno Boghossian é jornalista da Folha de S. Paulo